domingo, 5 de julho de 2015

Como escrever POVs de crianças

Point of View Infantil



Perspectiva Infantil: O que é?
Para explicar nossa Perspectiva Infantil, primeiro quero esclarecer o que significa a sigla POV, que é bastante utilizada no mundo das fanfics. POV é uma uma sigla da língua inglesa que abrevia "Point of View", ou seja, ponte de vista.
O POV é utilizado quando o autor quer trazer para a história uma perspectiva de outro personagem, seja principal ou secundário. O que seria implantado nessa tal perspectiva, então? Na maioria das vezes, em POVs a personagem pode falar abertamente sobre o que sente acerca de determinado assunto, como vê determinada situação e, principalmente, como reage às mesmas.
Essa interação mais direta com o personagem ajuda o leitor no quesito de identificação do caráter em questão, e é muito eficiente quando utilizada em fanfics/livros que envolvem psicopatia e outros transtornos mentais.

E isso finalmente nos leva ao nosso POV Infantil. Um ponto de vista infantil em uma história, seja em fanfics ou livros materiais, é um caráter ingênuo, e muitas vezes confuso, muito difícil de produzir.
Um POV infantil tem que levar em consideração inúmeros fatores impostos pelo autor no caráter da criança para que fique bem desenvolvido, tais como:

Quantos anos tem a personagem?
A idade da personagem é um fator decisivo para o POV do mesmo. Levando em consideração os conceitos psicanalíticos, a criança, dependendo de sua idade, pode já obter conceitos de razão. O ideal é fazer uma pesquisa geral sobre as características de desenvolvimento de cada idade, para não errar na hora de elaborar o caráter da personagem e, por consequência, equivocar-se em sua perspectiva na história.

Qual é o meio em que ele vive?
O meio ambiente em que o personagem foi criado também é uma importante rotatória de seu POV. Tanto psicológica quanto fisicamente, o meio em que vive a personagem é decisivo para sua perspectiva pessoal.
Digamos que eu tenha uma criança que nasceu e se criou numa fazendo no interior:
Consequentemente o POV da personagem terá que se adequar à falta de toda uma rotina que nos é normal nas grandes metrópoles, e terá que conter detalhes rurais com os quais ela convive diariamente.
Agora, vamos supor que eu tenha uma criança nascida em uma cidade futurística:
Os objetos de costume do meio infantil terão se modificado drasticamente, como já fizeram de épocas passadas para a de hoje (pense nos tablets, computadores, celulares e outras tecnologias que surgiram da época de seus bisavôs para a sua), e isso terá que ser abrigado na narrativa.

Qual é sua história?
Principalmente o passado e presente do personagem devem ser levados em consideração. Mesmo as coisas mais simples e banais (como um trauma que a mãe pode ter sofrido durante a gravidez; um susto que levou; um desejo que não foi realizado) podem ser retratadas na personalidade e no POV dessa criança.
Além disso, os fatos presentes também adequam muitos detalhes da perspectiva infantil, por exemplo, essa criança sofre bullying? Essa criança recebe amor dos pais? Essa criança confia demos em estranhos? Caso a criança sofra abuso sexual, o que a levou a não desconfiar de nada? Seria sua personalidade ou apenas a ingenuidade infantil? E o que gerou esse abuso, quais foram os métodos que o estuprador usou para convencê-la a ir com ele? São inúmeras perguntas importante e, talvez, esse seja o ponto que mais altera/forma o POV, tanto infantil quanto os demais.

A criança tem sua saúde mental completa?
Talvez esse seja o ponto mais delicado de um POV infantil. Caso a história envolva transtornos mentias, as pesquisas devem ser ainda mais acirradas e minuciosas. Se narrar um transtorno mental em cindições normais já é difícil, imagine trazendo-o para o POV infantil. O grande Q da questão é ligar essa característica com os outros pontos já citados anteriormente. Um exemplo:
Eliana tinha cinco anos, vivia no meio rural, tinha TOC e sofreu abuso sexual.
Viu como cada detalhe vai influenciar no POV de Eliana? Se ela vivia no meio rural, o abuso sexual não ia ter consequências graves para o estuprador, pela falta de contato com forças superiores e de policiamento nas regiões mais pobres e afastadas da metrópole.
Se ela tinha cinco anos, a idade da ingenuidade ainda não havia passado e, isso, imediatamente, se tornaria um trauma confuso na cabeça da criança. Se ela tinha TOC, esse transtorno se agravaria por conta do abuso e com certeza a tornaria diferente do que era. As pesquisas têm que vir bem completinhas aqui e o mais importante é juntar todos esses pontos da sua fanfic ou livro para inserir no POV infantil o máximo de informações possíveis.

Como elaborar a minha narrativa?
A segunda parte do post se inicia com essa perguntinha difícil. Como elaborar uma narrativa de PO infantil? Imagino que, com as circunstâncias do personagem já trabalhadas na sua cabeça, essa parte flua com mais facilidade. Então vamos lá:

Narrar dentro do pensamento infantil é uma coisa, no mínimo, complexa. Pelo menos o que eu lembro sobre quando era criança não é nada simples. Lembro que, na minha ideia, os beijos de novela eram mentira, e os atores colocavam um tipo de fitinha especial nos lábios (invisível, claro) para evitar o constrangimento da cena e não sentir os lábios se tocando.
Lembro que pensava que minha vida era uma novela improvisada, e que os telespectadores iam, uma hora ou outra, revelar-se a mim e aos demais participante.
As crianças pensam coisas loucas, improváveis e bobas (mas é claro que a idade também influencia demais nesse quesito) então é importante ressaltar isso na narrativa e evitar construir um Pedrinho de sete anos que já consegue bolar frases de naipe para discutir com o Seu Alceu, de quarenta e dois.
A personagem pode ter uma inteligência intrigante? Pode, sim... Acho até interessante, mas sem sair dos aspectos infantis, por favor, e analisando os assuntos que serão tratados com essa tal inteligência, porque acho que ninguém esperava ver um Pedrinho de sete anos (ainda que inteligente) discutindo sobre política com o Seu Alceu.

A linguagem infantil também não pode fugir do seu POV. É importante saber que a criança utiliza uma linguagem amena simples e livre de complicações. Nada de fazer Pedrinho falar "Nós nos encontramos ontem e sentamos para conversar sobre o José". O Pedrinho de sete anos geralmente fala assim: "A gente se encontrou ontem e sentou pra bater um papo sobre o José".
Mas não vá também colocando esse tipo de linguagem pra qualquer criança, okay? Espere ai. Como eu disse anteriormente, todas as características já construídas valerão nessa fase de narrar o POV infantil, ou seja, se você construiu um Pedrinho nascino na Europa e desde cedo matriculado em internatos dos mais altos níveis, a linguagem também não pode vir fantasiada de dialeto comum de molequinho do morro. Tente fazer pesquisas acerca disso também.

A situação em que esse POV virá na história também influencia o dialeto e as ações da criança. Achoque com qualquer personagem, aliás, e não só com crianças, essa circunstância pode beneficiar ou danificar um POV. Por exemplo, se a mãe da criança acabou de morrer num acidente de carro, não terá sentido fazê-la falar com todas as capacidades cognitivas intactas (mesmo que ainda usando o dialeto infantil e mais informal).
Você tem que saber "interpretar" aquela personagem na narrativa e fazê-lo sentir realmente as circunstâncias que lhe rodeiam. É inútil tentar fazer um POV funcionar sem utilizar as circunstâncias para moldar sua personagem, o caráter não vai ficar incólume em todas as situações. Se já foi dito no início do capítulo que a criança tem asma, quando, no final, ela sofre um impacto, essa asma tem que vir à baila e fazer seu papel.
Com qualquer POV é importante fazer isso, viu? Também vejo muitos autores errando nessa circunstâncias (não sei se é falta de pesquisa ou só desleixo), dizem que a personagem gagueja, mas só fazem gaguejar na frente da garota dos sonhos, se esquecem de fazê-lo gaguejar também no cotidiano. Se a personagem tem algum problema/deficiência, não se pode escolher horas específicas para elas aparecerem.

Indicações de POV:
Acho que essa vai não só para quem quer narrar POVs infantis, mas para todos os autores que narram POVs o geral. Se a sua narrativa tem POV desde o início e só é narrada em um, pule esta parte. Mas, caso você queria incluir POVs apenas em alguns capítulo, ou variá-los diversas vezes em um só, isso é para você:

Como indicar que vou narrar em POV?
Na verdade, acho que não há um jeito correto para fazer essa indicação. Cada autor tem sua maneira. Mas além de dar alguns exemplos de como fazê-lo, também quero deixar claro alguns meios de indicar POV que não acho legais (por opinião própria).
Já viu autores que, quando vão narrar em POV, indicam assim: Fulano ON/Fulano OFF? Não acho isso legal. Acho meio irrelevante para narrativas, mesmo que sejam apenas fanfics que não haja o desejo de transformá-las em livros algum dia. Para mim, isso é como utilizar "Huehue" uma linguagem de internauta em uma história.
Outra coisa que não acho muito interessante, indicar que vai começar a narrativa em POV de Fulano. Acho muito discrepante, sabe? (Já utilizei, confesso, mas nas minhas novas fanfics parei de utilizar). Então vou colocar aqui alguns exemplos que me são agradáveis, e que, inclusive, já vi sendo utilizados em livros com POVs de várias personagens (principais ou não):

Quando o POV é dividido por capítulos (um capítulo é narrado com o POV de uma personagem, o outro é narrado com outro POV e assim por diante)

Eliana - como título do capítulo
(E narrativa segue normal)

Quando o POV entra em primeira pessoa, depois do narrador observador

(narrativa em narrador observador)...
- Parágrafo
Eliana
(narrativa de Eliana)

Quando o POV vem como pensamento do personagem

(narrativa normal)
Vou matá-lo! -- ela pensou. (<-- o POV em itálico e descrito como numa fala normal, com parágrafo e travessão)
(narrativa prossegue)


Bem, acho que é tudo por este post.
Até o próximo.
Beijos da Ana.