quarta-feira, 15 de julho de 2015

A personagem



Quando criamos uma personagem, temos sempre uma ideia geral da função que ela terá no livro/fanfic, entretanto, a sua personalidade e o entendimento feito pelo leitor são dados através da sua indispensável caracterização. Logo, ao analisarmos que as personagens são as agentes das ações e que as ações são os atrativos para o leitor prosseguir com a sua leitura, percebemos a importância desses operadores da narrativa.

Ao refletirmos sobre os nossos livros favoritos, reparamos que a forma como as personagens agem, falam e pensam, ajudam a tornar a história mais crível, o que gera certa conexão entre o leitor e a história. Por isso, a medida que os desejos, as motivações, as frustrações, as intenções, entre outros, são investigados pelo leitor e servem de elementos atrativos a ele, a parte psicológica é a principal na caracterização de personagens.
Assim, ainda que pensemos primeiro nas formas físicas deles, temos de dar prioridade à psicológica, que influenciará tanto no rumo da história quanto na conexão com aquele a quem destinamos a leitura.

Tendo o processo de caracterização, mediante as particularidades psicológicas, a meta de tornar mais realista a personagem, temos de enfatizar a ideia de que queremos dar características mais humanas aos personagens (independentemente de eles serem sobrenaturais ou não).
Entretanto, não devemos começar querendo fazer algo muito complexo ou complicado, temos de dar prioridade aos seus carácteres que influenciarão no enredo.

Entendido isso, o processo de caracterização deve compreender a existência de dois tipos de personagens: as simples e as complexas.
Assim, temos:

1) Personagens simples: são fundamentados em um traço principal da sua personalidade, que se repete diversas vezes durante a narrativa. Porém não mudar a sua forma de ser, permanecendo assim do início ao fim da história, sendo previsíveis (nesse caso, são chamados de personagens planas). Também podem funcionar como caricaturas de uma profissão, classe social ou comportamento (nesse contexto, são personagens tipo).
Quando bem trabalhados, cumprem o importante papel de contrastar com personagens complexos, servindo de referencial à sua transformação durante a narrativa.

2) Personagens complexas: expressam a complexidade da natureza humana com as suas ambiguidades, contradições e mistérios. Diferentemente das personagens simples, estas são imprevisíveis, possuem grande vida interior e tendem a mudar o seu modo de ser durante a narrativa.
As grandes histórias são construídas ao redor delas, pois elas são responsáveis por dramatizar o tema da história. Além disso, as metáforas feitas por essa pessoa, normalmente, tratam-se da forma como o escritor vê o mundo.

Além de ser fundamental sabermos a qual categoria pertence o nosso personagem, temos de nos perguntas mais três coisas e respondê-las:

1) Quem é esse personagem: Reflitamos sobre os aspectos físicos (cor dos olhos, pele, cabelo, estatura, peso, porte), psicológicos (traumas, medos, segredos, atitude, personalidade, experiências) e culturais (roupas, hábitos, costumes, crenças).

2) O que ele deseja? Qual é o seu objetivo? E qual é o seu papel no enredo e a sua influência sobre os demais?

3) Qual é a sua motivação? O que o move? O que o influencia? É o seu objetivo? É o seu status social? O personagem está em busca de se autoconhecer? Ou de um sentimento para seguir vivendo?

Entretanto, evitemos vir com essa de "ele era alto, moreno, forte" e não sei mais quantos adjetivos seguidos fornecidos pelo narrador. Esse tipo de caracterização se denomina caracterização direta, em que o leitor recebe diretamente o caráter e a fisionomia do personagem.
Ela também pode ser feita através de monólogos, cartas, canções, sonhos e afins ou através de falas ou pensamentos de outros personagens ou de si mesma.

Porém, ainda que seja desafiante, através da caracterização indireta, podemos influenciar descobertas ao leitor através das ações das personagens. Deixemos que o leitor desvende os agentes através da leitura.
Usemos o cenário para das esse gosto ao interessado, especialmente no lugar de escrevermos flashbacks e descrições que sejam redundantes ou que afastem o leitor da ação que está acontecendo e que é verdadeiramente importante.

Essas pistas podem vir através do local de trabalho, da residência humilde ou de um estranho hábito que implica uma característica atual. Por exemplo, o simples fato de citarmos que o personagem X entrou em um quarto desorganizado onde só dava para acessar a sua cama, em que ele dormiu por várias horas seguidas, demonstra que X é bagunceiro e dorminhoco.

Além desses dois tipos, existe a caracterização mista, que é a forma mais comum em romances. Há certos balanceamento entre a caracterização direta e indireta, medindo, como sempre, os exageros.

Enquanto pensamos nas características de cada ser da história, também devemos refletir sobre o seu papel para a trama. Logo, temos de saber as opções que podem ser dadas a eles. Não é necessário, todavia, que incluamos todos juntos em uma mesma história, mas existem oito níveis de importância das personagens.
São eles:

1) Protagonista: tudo gira ao seu redor. Reparamos já que isso soa um pouco egoísta, mas essa característica será dada por nós mesmos, os escritores. O protagonista é o eixo da história, aquela pessoa mais bem desenvolvida na narrativa.

2) Personagem central: pode ser ou pode não ser o próprio protagonista. O personagem central se encarrega por despertar maior curiosidade ao leitor, por instigá-lo a continuar lendo. E essa é, justamente, a maior diferença se comparado ao protagonista. O último envolve o leitor, principalmente pela ação enquanto o primeiro instiga curiosidade.

3) Coprotagonista: em uma metáfora, serio o ajudante do super-herói. O coprotagonista ajuda o protagonista a atingir a sua meta, normalmente tendo uma relação próxima com o principal.

4) Antagonista: é o que chamamos de vilão nas novelas brasileiras e mexicanas. É aquele ser que complica a vida do protagonista ou representa uma ameaça à coisa almejada pelo principal.

5) Oponente: é o ajudante do antagonista. Ele auxilia o antagonista a dificultar a vida do protagonista.

6) Falso protagonista: é uma personagem que é posta na trama para enganar o leitor. Ela ginge ser a protagonista, mas durante a trama, se revela quem é a verdadeira, dando um efeito surpresa à narrativa.

7) Coadjuvante: é uma personagem secundária que auxilia, complicando ou ajudando, no desenvolvimento da história.

8) Figurante: é uma personagem que é utilizada para compor o cenário, sem ter interferência alguma no enredo (senão, seria coadjuvante).

Também podemos classificar a existência de personagens em quatro tipos:

1) Real ou histórico: com o certo grau de fidelidade, são tentativas do autor de reproduzir pessoas que já existiram.

2) Fictício ou ficcional: são fundamentados em pessoas reais, vivendo história que poderiam acontecer.

3) Real-ficcional: são personagem reais, mas com algumas características fictícias.

4) Ficcional-ficcional: normalmente presentes em gêneros de ficção científica, fantasia e terror, são personagens totalmente ficcionais com características (tanto físicas quanto psicológicas) só possíveis no contexto imaginativo da ficção.

Relembrando o que foi dito anteriormente, é importante deixarmos, pelo menos, o protagonista com características humanas para o leitor crer no nosso ser fictício. Se ele o fizer, quererá continuar lendo a narrativa para ver como essa pessoa com quem ele se identificou, terminará.
Claro que podemos inserir seres ficcionais-ficcionais, mas não podemos afastar muito o leitor com o excesso deles.

Se vamos escrever as características das personagens antes da história ou se as identificarmos durante, é indiferente. Isso se trata de preferências de cada escritor, não há uma fórmula exata (como tudo na escrita). Apenas é evitável alterá-los radicalmente e sem propósito algum.
Prever as características e as ações ajuda nesse processo de roteiro. Além disso, é importante equilibrar a lógica e as emoções e saber discernir o que é excesso de informação e se essa é essencial para o texto ou não. Lembrando sempre: quanto mais limpa a narrativa, melhor.


Como se cria uma personagem?

Como já vimos, as personagens configuram uma parte importantíssima da história. Podem movimentá-la, travá-la para sempre, marcá-la ou deixar a história tão batida que mesmo um enredo incrível não vai conseguir tirar aquele ar sem graça à medida que você vai avançando os parágrafos.
Então, como se constrói um bom personagem?

Algo que eu notei ao longo dos anos escrevendo e lendo fanfics (até mesmo em alguns livros, para ser sincera) é que a maioria dos autores não aprofunda seus personagens. Em algumas fanfics, é só aquilo mesmo, a pessoa coloca uma foto da celebridade que se assemelha a eles fisicamente e pronto! Nem uma descrição de duas linhas eles ganham.~

Claro que você não precisa inventar uma segunda história para dar vida a cada uma de suas criações, mas é interessante que tenhamos ao menos alguns detalhes em mente na hora de escrever, até para que tudo flua mais lógica e naturalmente. "É isso que Fulano diria aqui" "É assim que Fulano agiria nessa situação",

Nas minhas andanças pela internet, encontrei uma ficha, presente num livro sobre animação, com as perguntas básicas que você pode se fazer quando cria uma personagem.
Obviamente, ela não contém todas as informações que você pode querer adicionar ou, dependendo do caso, talvez contenha informações até demais, porém, é muito útil para se ter uma base e, a partir daí, formar cada personagem seu aos pouquinhos.
A ficha se encontra abaixo. Sintam-se livres para usar e chega de personagens superficiais.

Ficha das personagens

Idade: Qual é a idade da sua personagem agora? Ela está muito diferente de quando era mais nova?

Etnia: Quais são as origens da personagem? Como ela se sente sobre elas?

Altura: Qual é a altura da personagem? Como isso afeta a maneira com que ela vê seu lugar no mundo.

Peso: Qual é o peso da personagem? Como os outros a tratam por causa dele, se for diferente do normal?

Sexo/Reprodução: Como a personagem se reproduz? Ela faz sexo? Ela é virgem? Como isso muda seu comportamento?

Gênero: Qual é o sexo da personagem? Como isso altera seu papel e status no mundo e dentro de sua família?

Saúde: A personagem é deficiente? Se sim, ela nasceu assim? Ela tem asma? Como sua saúde a afeta a atingir seus objetivos?

Inteligência: A personagem tem um nível normal de intelecto ou abaixo do normal? Ela é um gênio? Como esse intelecto a faz reagir com as pessoas em volta?

Educação: Não é para ser confundido com inteligência, você pode ser estudioso e não ter nenhum bom senso. A personagem é alguém que foi educado nas melhores escolas ou ela largou talvez o ensino médio? Essas coisas afetarão muito como ela interage com outras pessoas que acha que não são do seu nível ou à altura de quem ela acha que nunca estará.

Ciclo evolutivo: Esta é a expectativa de vida da personagem. Obviamente, se você está lidando com humanos sabe a duração mínima, porém, muitas vezes em histórias trabalhamos com aliens, animais ou mesmo pessoas de épocas em que a expectativa de vida era bem menor.

Cultura: Essa parte se refere às crenças da personagem. Isso pesa muito na mente dela, mesmo que ela não acredite mas nas coisas em que foi educado, porque é a única coisa que ela conhece - é como foi ensinado desde pequena.

Comida/Alimentação: A comida que sua personagem come pode revelar como ela vê a si mesma e a seu corpo. Ela é uma atleta que só pode comer certas coisas? É uma motorista de caminhão desempregada que ama cachorro-quente com chili?

Noturno: A personagem é mais ativo durante a noite? Ela gosta de ficar acordado até tarde?

Família: Valores? Tamanho? A estrutura da família tem um grande papel na formação de sua personagem e em como ela vê seu lugar no mundo. Se ela veio de uma família grande, ela pode ser barulhenta e escandalosa de tanto se fazer ouvir. Se for filha única, pode ser mais introvertido e tímido, ficar na dela.

Dinheiro: A personagem é rica? Pobre? Destituída? Terrivelmente rica?

Profissão: O que a personagem faz da vida? Como isso contribui para que ele atinja seus objetivos ou a impede de alcançá-los?

Estrutura corporal: Esse atributo afeta totalmente como a personagem se move e como ela é vista pelos outros. Ela é grande e magricela? Ela anda engraçado? Ela é pequena e passa despercebida?

Defeitos (fatal): Defeitos são cruciais para mostrar humanidade. Eles também podem trazer a morte da personagem ou ser o obstáculo entre ele e seu objetivo.

Idiossincrasias: O que faz da personagem diferente? É assim que você cria uma personagem memorável. Ela fuma um cachimbo? Ela inclina a cabeça quando fala? Ela tem gagueira? São esses detalhes interessantes que farão de sua personagem, independente do modelo que você escolha, diferente do resto.

Ambiente: Como um ambiente de uma igreja versus uma batida de carro influencia a personagem? Ela pode ter tido experiências nas quais reagiu de maneira fora do normal por causa do seu passado. Talvez ela tenha tido uma mãe que entrava e saía de hospitais a vida toda, então ela simplesmente não suporta mais entrar em um.

Objetivos: O que sua personagem quer? O que ela deseja mais do que tudo? Como ela pode fazer isso acontecer? Do que ela precisa?

Sonhos: Quais são os sonhos de sua personagem? Sonhos são ambições altas que temos, mas que podem ser tão altas que estão fora de alcance. Diferente dos objetivos, sonhos parecem estar bem distante no futuro. Sonhos e objetivos são similares porque sonhos logo  podem virar nossos objetivos à medida que chegamos mais perto de fazê-lo virar realidade.

Trauma: Sua personagem teve algum trauma?Trauma é algo que aconteceu no passado e que afeta como sua personagem age. Esses momentos tensos ficam conosco por um longo tempo e nos fazem pensar sobre o que queremos e no que acreditamos.

Talento: Sua personagem tem algum talento? O que a faz diferente das outras personagens da história?

Vícios: Sua personagem bebe? Fuma? Se droga? É viciada em comprimidos para dr? Essas coisas podem ajudá-la ou impedi-la de atingir seus objetivos.






"Nunca trate uma personagem como tapa-buraco ou um mero mecanismo para avançar seu enredo." (Bill Wright)

"Bons vilões começam como quaisquer personagens memoráveis - com humanidade. Um bom vilão é um ser humano com um defeito fatal." (Angie Jones e Jamie Oliff)






Isso é tudo por este post. Espero ter ajudado.
Até o próximo.
Beijos da Ana.